“NEM PASSANDO UM PANO NÃO DESEMBAÇA”

Virgílio de Mattos[1]

IV Seminário Antiprisional

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Soraia me telefona perguntando se pode recortar o seminário em dois? Não entendi ou não escutei direito, havia um barulho tremendo de onde ela falava, aliado ao fato dela estar lavando alguma coisa o que trazia também ao fundo um barulho de água escorrendo forte, parecia que ela estava fazendo malabarismo para segurar o telefone e por aqui também uma outra mulher muito querida esgoelava Spargi d’amaro pianto, de Lucia di Lammermoor, final da longa cena da loucura de Lucia, enquanto eu estava com a cabeça no planeta dos passarinhos que comiam o abacate.

- Como assim, Soraia? Não tô entendendo, não tô escutando você direito…

- É pra i nos dois dias? Eu trabalho até as oito da noite na sexta. No sábado eu tenho como trocá, mas na sexta tá embaçado. Nem passando um pano não desembaça”.

Soraia é uma querida amiga que trabalha duro, limpando a casa dos outros. Já fez isso até aqui em casa algumas vezes. Virava tudo, limpava tudo e colocava exatamente no mesmo lugar. Soraia é dessas mulheres lindas como a mulher que amo: têm uma fibra forte demais que torcem e tecem há milênios.

No caso específico da Soraia enquanto as trabalhadoras têm que sair de suas casas para fazer seu serviço fora e não conseguem fazer a dupla jornada cotidiana da maioria das mulheres, que há séculos são obrigadas a isso, ela faz o trabalho invisível de arrumação; faz isso de uma forma inacreditável, com alegria, com gosto. Eternamente empurrando essa pedra morro acima.

- Se pode i só no sábado pra mim é tranquilo. Embaça nada não. Tô indo pra aprendê mesmo, é milhor que aprende e diverte de uma vez só. Sem preocupação de ficar cheganu atrasada, né di vera?

Sempre quis ter uma aluna igual à Soraia. Altivez, respeito e gana de aprender em uma só pessoa. Ela ri com os olhos nas palestras e diz que não entende muita coisa “assim pra ficá explicanu igual a Dona Tereza”.

Tenho um orgulho danado em ser seu amigo, viu, Soraia?! É pensando em pessoas iguais a você que eu fico tentando “pentear o texto” procê rir no dia, sabia?

IV SEMINÁRIO ANTIPRISIONAL DESCONTRUÇÃO DAS PRÁTICAS PUNITIVAS; vejo você e o olhar de sorriso da Soraia por lá.


[1] – Graduado, especialista em ciências penais e mestre em direito pela UFMG. Doutor em Direito pela Università Degli Studi di Lecce (IT). Do Grupo de Amigos e Familiares de Pessoas em Privação de Liberdade. Do Fórum Mineiro de Saúde Mental. Autor de Crime e Psiquiatria – Preliminares para a Desconstrução das Medidas de Segurança, SEM RUMO & SEM RAZÃO – Mapeamento dos cidadãos submetidos à medida de segurança em Minas Gerais, dentre outros. Advogado criminalista. virgilio@portugalemattos.com.br

 

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IV SEMINÁRIO ANTIPRISIONAL – DESCONSTRUÇÃO DAS PRÁTICAS PUNITIVAS

IV Seminário Antiprisional

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Cinco personagens e um fio a traçar

Qual é o fio que liga as vidas desses cinco personagens? Não vou responder agora. Deixo as histórias para quem quiser pensar no assunto e tentar alguma resposta.

Sérgio, ao falar sobre o seu envolvimento com o crime, disse: “já trabalhei, mas ganhava muito pouco e não dava pra mim vivê não”.

Conta que começou a roubar porque morava na favela e via os meninos que roubavam andando arrumados e passou a roubar também, depois passou a vender drogas.

Meus envolvimento foi tipo assim, foi desde da infância, né. Porque tipo assim, porque onde que eu moro é uma favela, né? Pedreira Prado Lopes. Aí eu via todo mundo andando arrumadim, tudo, andando estribado, eu não tinha condições de comprar um tênis, uma roupa, minha mãe também não tinha. Aí os menino roubava e tudo, né? Aí eu entrei na vida do crime também, comecei a roubar. Aí do roubo eu passei para o tráfico. Traficava lá dentro da favela.

Sobre a motivação para o crime, Geraldo diferencia o sustento, no sentido de mera sobrevivência, de um conforto maior que, para ele, sua família merecia:

Mas ninguém qué vivê só pra sustentá, né? Eu conseguia sustentar a minha família, tanto que quando eu roubei esse cara que ele vendeu o caminhão dele eu nem tava usando droga mais, só tomava uma cerveja, assim. Mas eu queria dar um conforto melhor pra minha família. Pra minha mulher, pra minha filha. Tem que dá eles de tudo, né? Do bom que eles merece.

Rogério conta que começou no crime aos 12 anos de idade. Estudou “muito pouco”, até a segunda série do ensino fundamental. Envolveu-se com o crime porque estava passando por dificuldades financeiras em casa. Procurava emprego, mas não encontrava. Passou então a vender droga. Já esteve empregado: “Já trabalhei de servente, já trabalhei de repositor.

Márcio conta que começou a assaltar aos 16 anos de idade. Envolveu-se com assalto a mão armada. O motivo teria sido a revolta provocada pelo fato de terem roubado e assassinado seu amigo na favela. Alega, também, que precisava do dinheiro e por isso começou a praticar crimes. “A vida lá fora é foda”. “Se não robá eles não dá serviço… não tem jeito…”

 A família não tinha como me sustentar, né? Pela faixa salarial. Aí eu fui crescendo naquele mundo e fui interno de Febens, Funabens. Fui também conhecendo pessoas, né? A gente vai se envolvendo, né? Roubo, furto, né? Depois assalto, seqüestro, homicídio.

Fabrício considera que o pai nunca deixou faltar nada em casa, mas roubava porque queria mais do que o pai poderia dar:

O meu pai nunca deixou faltar pra mim não, mas eu sempre queria mais. Pra poder sair pro show, mulher, bebida, roupa, celular, arma, relógio, moto, carro. É isso aí que leva a gente a roubar, né?

 

Quino Dios

 

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“RAÍZES DE ÁRVORES NÃO DÃO SOMBRA”

Raízes

A catira é africana.

O samba é africano.

O blues é africano.

 

E, se não me engano,

Eu também sou africano

no final.

 

Assombra essa conversa

metafórica que seja

de raiz não dar sombra

a quem quer que seja

 

patrões constroem sempre amplas varandas

Virgílio de Mattos

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AGORA EMBAÇOU GERAL!

Virgílio de Mattos[1]

Agora embaçou

Depois da massa comendo brioches, Waterloo

Não basta a crise estadunidense que se arrasta desde 2008 e o medo pânico de que a “mão invisível” do mercado; o deus da modernidade ou da pós, para quem nela acredita; acabaria por controlar tudo. Obviamente não conseguiria controlar a onda de quebradeira em cascata (olha a onda! Olha a onda! Olha a onda!) que se anunciava e se avizinha (embora aqui tudo não tenha passado de marolinha mesmo, para desespero das classes dominantes) mundo afora, zona do euro all incluse.

O que me fez quebrar esse “silêncio de rádio”, concentrado na escritura do novo livro, sobretudo concentrado na sobrevivência com dignidade, definitivamente foi a manifestação de 250 mil manifestantes, que tomaram as ruas exigindo justiça social. Esse o número mais conservador. Os organizadores falam em 500 mil pessoas, a imprensa em 300 mil. Se fosse aqui no Brasil esse número de 250 mil equivaleria ao cálculo da PM.

O que pensam os manifestantes por justiça social? Basicamente que possam pagar os aluguéis e comer. Simples assim: querem poder pagar o aluguel no final do mês e comer todos os dias.

Se aproximam ainda a nós quando gritam que “as pessoas vem antes dos lucros”, mas tornam a ficar distantes quando reclamam da alta do queijo ‘cottage’, que nem o Jorginho Jardineiro e nem o Seo Zé jamais ouviram falar,  – “parece quê’el tá joganu na Oropa”, se se perguntasse a eles “quem é o cottage”.

Grécia, Irlanda, Portugal, España, Itália e até Israel com o povo na rua?

Agora embaçou geral!



[1] – Graduado, especialista em ciências penais e mestre em direito pela UFMG. Doutor em Direito pela Università Degli Studi di Lecce (IT). Do Grupo de Amigos e Familiares de Pessoas em Privação de Liberdade. Do Fórum Mineiro de Saúde Mental. Autor de Crime e Psiquiatria – Preliminares para a Desconstrução das Medidas de Segurança, A visibilidade do Invisível e De uniforme diferente – o livro das agentes, dentre outros. Advogado criminalista. virgilio@portugalemattos.com.br

 

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Fotos de Domingo 18 (reedição)

IV SEMINÁRIO ANTIPRISIONAL – DESCONSTRUÇÃO DAS PRÁTICAS PUNITIVAS

IV Seminário Antiprisional

Clique para ver o cartaz em tamanho maior

Virgílio de Mattos

Casa de Ricos

Um tribunal, esteja onde esteja, é sempre isso: originalmente uma casa de ricos.

Carlos Magalhães

Presidio Feminino

Uma cadeia, esteja onde esteja, é sempre isso: definitivamente um depósito de pobres..

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TRUQUE LÚGUBRE I

Por Virgílio de Mattos

(introdução lógica)O mago

 

Morrer é como o mágico que some:

ilusório ilusionista de si mesmo.

Crê que quando grita:

Luta de classes!

Toda a exploração se consome.

 

Coitado do otimista.

 

Morrer não é como ficar para sempre

em um quarto de hotel.

Morrer é como o mágico que some

ilusório ilusionista de si mesmo,

quase sempre para sempre.

 

              TRUQUE LÚGUBRE II

(Discursos ao pé do túmulo)

 

O morto não podendo se defender

qualquer bobagem dita pode parecer

que cria o morto naquilo que

o autor do discurso diz

 

{vocês não imaginam a patifaria que isso produz}

 

Não estamos aqui para fazer análise de discurso

Isto aqui é um poema e ponto

 

Morrer é para sempre.

Morrer é como o mágico que some

ilusório ilusionista de si mesmo,

quase sempre para sempre.

 

              TRUQUE LÚGUBRE III

                    (depois de tudo)

 

O mágico não podendo escapar se conforma.

Qualquer movimento estabanado de desespero

irá diminuir o pouco oxigênio que cria o mágico

aqueles discursos pudessem trazer e pronto.

 

{Não estamos aqui para fazer análise de conjuntura

Isso aqui é um relato do ponto de vista do mágico

que aparece no poema e ponto}

 

Ninguém se salva nessa porra, ninguém mais.

Vamos fazer sumir a exploração.

E quando gritarmos: Luta de classes!

Quem estiver de sapatos ou de tênis não sobra.

Nem pedra sobre pedra e nem vice-versa

dizia o sábio óbvio, um otimista?

 

Morrer é para sempre.

Morrer é como o mágico que some

ilusório ilusionista de si mesmo,

sempre pra sempre

sempre.

 

E ponto final afinal.

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Fotos de Domingo (novo adiamento)

O blogueiro ficará um pouco offline no fim de semana. As “Fotos de domingo” voltam na próxima semana.

APROVEITE PARA CONFERIR O CARTAZ DO POST ANTERIOR!

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LEMBRO-ME DELA COM GRATIDÃO!

Virgílio de Mattos[1]

A notícia me pega como um soco no estômago e obviamente se trata de alguma confusão: Dona Helena Greco não morreu. Pessoas como Dona Helena não morrem nunca, se encantam, como diria João Guimarães Rosa, viram estrela. Viram uma grande estrela vermelha no céu desse inverno. Mais uma na constelação de tantas perdas que tivemos.

Perda irreparável, inapelável, indigesta.

Aos 95 anos é apenas o corpo de Dona Helena que não mais existe. Ela permanece e permanecerá para sempre. Seu exemplo, seus ideais de luta, de participação, de militância pelo fim de uma sociedade dividida em classes e exatamente porque assim dividida ainda existe a prisão, a tortura, o manicômio e a exploração.

Dona Helena é muito mais do que a lembrança de cada um de nós que teve o privilégio de conhecê-la. Sempre esteve acima e além dessa mesquinharia que se transformou a política partidária.

Uma coisa nós, os sobreviventes, ainda ficamos devendo à Dona Helena: o desmantelamento do aparato repressivo e julgamento e punição dos torturadores, de todos eles.

Essa tarefa, assim com a luta de Dona Helena, é uma luta cotidiana, contínua.

Sabemos que ela nunca desistiu.

Venceremos, Dona Helena, lamentavelmente não posso dizer ainda quando, mas continua sendo só uma questão de tempo.

Era uma combatente e fará muita falta nesses tempos sombrios em que estamos tendo a falta de sorte de viver. Lembro-me dela com gratidão. Eu e ela sabemos os porquês.

Helena Greco


[1] – Graduado, especialista em ciências penais e mestre em direito pela UFMG. Doutor em Direito pela Università Degli Studi di Lecce (IT). Do Grupo de Amigos e Familiares de Pessoas em Privação de Liberdade. Do Fórum Mineiro de Saúde Mental. Autor de Crime e Psiquiatria – Preliminares para a Desconstrução das Medidas de Segurança, Sem rumo & sem razão, dentre outros. Advogado criminalista. virgilio@portugalemattos.com.br

 

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Fotos de Domingo 17

Virgílio de Mattos

O GAVIÃO ELETRÔNICO

Vi o voo quando ele pousava. QUANDO DECIMOS: PAN-PENALISMO, ?QUE LO QUE DECIMOS EN REALIDAD? “(...) los cómplices y beneficiários de esta macroestafa grosera son los que reclaman tolerancia cero, tortura, ejecuciones, institucionalización de niños, penas a adolescentes y criminalización de la pobreza. ? Que piden en definitiva? Nada más ni nada menos que represión, violación de los derechos civiles y políticos, para contener el avance de los derechos sociales, cuyos reclamos entiendem que ponen em riesgo sus privilégios” Zaffaroni, E.R., Hacia donde va el poder punitivo. Medellin : Sello Editorial, 2009, p. 62

 

Carlos Magalhães

Telhados

Os meios de comunicação estão aí e já não existem barreiras tecnológicas ou econômicas. As informações podem chegar onde são mais necessárias. Não chegam porque os meios estão sob controle de empresas que atuam livremente. Fazem valer a "liberdade de empresa". Mas queremos a "liberdade de expressão" e o "direito à informação".

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